12 de dezembro de 2009

Abraços Partidos dá maturidade à obra de Almodóvar


Maturidade. Esta é a palavra que melhor vai designar o filme “Abraços Partidos”, última película do aclamado diretor espanhol Pedro Almodóvar. Desta vez não encontramos uma homenagem direta às mulheres, mas um apreço especial pela produção, do roteiro à edição, para ressaltar sentimentos.

Abraços Partidos, após sua estreia na Espanha, foi muito bem recebido pela crítica, no entanto, a mesma se encarregou de colocar em dúvida sua bilheteria. Há uma explicação razoável para isto: este longa é singular se comparado com as outras obras do diretor. Nào há a exaltação explicita das mulheres e seus comportamentos mas gira em torno da vida dos protagonistas Mateo Blanco e seu grande amor, interpretado pela oscarizada atriz espanhola Penelope Cruz.

Vivendo infeliz em um trabalho no qual não tem perspectivas e com um pai doente para cuidar, Lena se casa com Ernesto Martins, depois de certa insistência de seu chefe, claro. Ernesto é um homem rico, que vive rodeado de inveja, abuso de poder, traição e complexo de culpa, tanta que decidiu produzir o filme em que Lena vai se lançar, do diretor Mateo Blanco. Este é o ponto crucial da história pois culminará em um trágico acidente na Ilha de Lanzarote.

Close-ups para enfatizar objetos, o pouco uso das cores chamativas - elemento que caracteriza a obra de Almodóvar - desencadeamento lento para expor e dar ênfase a fatos, estética pop-art, gestos ressaltados e estados emocionais ampliados foram largamente utilizados, além de diversas referências à própria obra e homenagens a suas ex-musas Chus Lampreave, Rosy de Palma e Kiti Manver e uma breve aparição, como de costume, de seu irmão Agustín Almodóvar.

As referencias à própria obra é algo novo e maduro. Para se utilizar deste artifício é preciso ter em mãos elementos que possam ser apontados e facilmente identificados, o que se consegue após anos de trabalho e com a construção de uma obra sólida. Com citações não-explicítas a “Salto Alto”e “Mulheres à Beira de um Ataque de nervos” no metalingüístico filme “Chicas y Maletas”- momento em que se autohomenageou com cores vibrantes e diálogos ácidos e outros que marcaram a sua vida como " Viagem à Itália " de Rossellini, Almodóvar cria em seu melodrama uma atmosfera que capta o expectador e nem o faz perceber que está sentado a mais de 2 horas e meia.

Um caliente romance surge entre Lena e o diretor Mateo de “Chicas y Maletas” e é nesse casal que reside o ponto irradiar do enredo. Lena e sua teia de relacionamentos, os fortes sentimentos e o abuso de poder de Ernesto, a culpa e o amor recolhido de Judit por Mateo e a presença do jovem Diego, importante para o desencadeamento e explicações do passado de Mateo e Lena. Digo passado pois o filme se passa 14 anos depois do trágico acidente. Mateo é um indivíduo curioso que se esconde com o seu pseudônimo Harry Caine, uma duplicação e prolongamento de si mesmo mas ainda nutre um profundo amor por sua amada Lena.

Lena exigiu pouco de Penelope Cruz, mesmo com a necessidade de interpretar a protagonista de Abraços Partidos e de “Chicas y Maletas”. No entanto, "Rotos" é o reflexo de um amor que não pode ser anulado nem com a morte e com a onipresença de um sem número de vítimas e obsessões. O filme está cheio de sentimentos e seus players nos dizem que o amor, a compaixão, as saudades, a traição, o poder e a corrupção estão juntos mesmo na história mais emocionante. A história de Mateo, Lena, Judit y Ernesto é dominada pela fatalidade, mas é uma história emocionante e terrível cuja imagem mais expressiva é a foto de dois amantes abraçados rasgada em mil pedaços. Abraços Partidos é um Almodóvar diferente de “Pepi, Luci e Bom”, muito mais suave, cauteloso e maduro.


Um comentário:

Jornalistazinha disse...

Agora eu fiquei com vontade de assistir, só pra encontrar esse "novo Almodóvar". E, claro, pra ver mais uma vez a Penélope Cruz em cena =)

Beijos Serginho!

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