15 de abril de 2009

A mais objetiva descrição do malandro paulistano

Alguém disse, certa vez:"se queres ser universal, fala de tua aldeia". O artista tem que conhecer o universo de seus personagens, tratá-los familiarmente, com conhecimento de causa. João Antônio parece ter seguido a risca este conselho, foi um autor que mergulhou "de cabeça" no universo que tão bem retratava em seus contos. Tinha um olhar sem distanciamento, que não se condoía de seus personagens, falando do "Zé Povinho" sem comiseração ou julgamentos de valor. Seu estilo, em que usava e abusava das gírias e da linguagem coloquial, era extremamente rico e obedecia a todos os preceitos de uma boa literatura, encarando a criação literária por um prisma análogo ao dos mestres modernistas, procurando aproximar o idioma escrito do falado.

João Antônio teve um começo de vida que dificilmente prenunciaria sua trajetória como homem de letras. Criado em uma favela na Vila Anastácio, às margens do Rio Tietê nas imediações mais pobres da Lapa de Baixo, onde não havia escolas ou cinemas, mas bordéis e botequins, o escritor descreveria mais tarde a região como um lugar que parecia reunir todas as nações que não deram certo em parte alguma. Ali havia imigrantes espanhóis, japoneses, russos e poloneses. "O mundo de Gorki estava ali na minha frente", costumava afirmar.

O jogo de sinuca, que apareceria em diversas histórias suas, ele conheceu na zona do meretrício, que freqüentava desde os 16 anos. O ambiente, ao mesmo tempo miserável e livre, não sufocou sua vocação natural e irresistível de escritor. "Cedo eu entendi que a única coisa que me dava prazer intelectual era escrever", comentou em uma entrevista. Aos 23, já trabalhando como repórter, tomou coragem e rascunhou seu primeiro conto, Malagueta, Perus e Bacanaço. Os originais se foram num incêndio que destruiu sua casa, em 1960. Persistente, reescreveu linha por linha, de memória, e, em 1963 conseguiu a publicação.

Na obra, ele traça, sem clichês ou falsa moral, o retrato de três malandros da sinuca, tipos que conhecia de sobra. Ao fundo, e permeando toda a ação, o bairro da Lapa. A Lapa de Baixo. Em diversos momentos, ele se detém numa descrição que entrelaça personagens, situações e a descrição da região:

"Para os lados do mercado e à beira dos trilhos do trem - porteira fechada, profusão de barulhos, confusão, gente. Bondes rangiam nos trilhos, catando ou depositando gente empurrada e empurrando-se no ponto inicial. Fechado o sinal da porteira, continua fechado. É pressa, as buzinas comem o ar com precipitação, exigem passagem. Pressa, que gente deixou os trabalhos, homens de gravata ou homens das fábricas. Bicicleta, motoneta, caminhão, apertando-se na rua. Para a cidade ou para as vilas, gente que vem ou que vai."

Quem curte uma boa leitura, calcada na realidade, aconselho o livro Leão-de-chácara, com o qual ganhou o prêmio de ficção da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Vale dizer que foi João Antônio quem cunhou a expressao imprensa nanica"pra se referir aos pequenos jornais que lutavam bravamente contra o governo ditatorial.

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